“A educação da colônia”. Por Saulo Carvalho

Saulo Carvalho

por Saulo Carvalho

Há um consenso a respeito da insuficiência de verbas para a educação. As secretarias de educação ressaltam isso, os jornais estampam na capa, os políticos reclamam em suas campanhas, enfim essa informação é mais do que conhecida pelo senso comum. No entanto, não se divulga pelos veículos de comunicação e órgãos estatais, o porquê dessa falta de dinheiro. Os baixos investimentos nas esferas sociais já se transformaram numa tradição no Brasil, falta dinheiro para educação, porque sempre faltou mesmo, seguindo-se assim esta “roda viva”. Mas, apesar dos escassos investimentos em educação e demais esferas sociais o Brasil ainda conseguiu manter-se entre na oitava potência econômica mundial, ultrapassando países da Comunidade Europeia como a Espanha. Para tomar conhecimento, em 2010 o PIB Brasileiro atingiu a meta de 1,8 trilhão de dólares, enquanto que a Espanha não ultrapassou a quantia de 1,5 trilhão.

Desses dados surgem duas questões fundamentais para entender a política econômica do nosso país destinada à educação. A primeira pergunta e mais simples delas: para onde vai o dinheiro que o Brasil arrecada? Para aprofundar um pouco nossos questionamentos, laçaremos a segunda questão problematizando o desenvolvimento capitalista nos países líderes da economia mundial. Se a educação foi mesmo a responsável pela alavancagem da economia desses países de capitalismo desenvolvido [1], como o Brasil, com gastos nesse setor, que chegam a ser menores do que do Paraguai, chegou à oitava posição da economia mundial?

De fato, a educação tem certa influência no crescimento econômico dos países de capitalismo desenvolvido, mas ela não é um fator determinante para isso, o que define o poderio econômico de uma nação no cenário mundial é a sua capacidade de produção e de angariar mercados. Como é de conhecimento de todos, o Brasil tem se destacado pela sua grande produção agrícola e capitalizado muitos mercados por isso. Essa “vocação” agroexportadora do Brasil e sua colocação estratégica na economia mundial tem refletido negativamente no que tange as políticas de investimento em educação. Vamos compreender um pouco como isso acontece, partindo da compreensão dos números do orçamento da União. De todo orçamento, quase que a metade é destinada para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Uma dívida que tem como credores, os bancos nacionais e estrangeiros, os fundos de pensão, os fundos de investimentos e as empresas não-financeiras. Como é possível que se reverta 45% do orçamento para o pagamento da dívida e apenas 2,89% para a educação? São quase vinte vezes mais de gastos com a bancarrota de especuladores aventureiros, do que o investimento na formação humana. Todavia, isso não acontece por um mero capricho do destino, é parte de uma política econômica que tem por objetivo alimentar o “dragão” capitalista.

A organização geopolítica do processo de reestruturação produtiva e crise permanente do capital impuseram aos países subdesenvolvidos do capitalismo, funções que remontam ao período colonialista no abastecimento das metrópoles. A nova função colonial dos países Latino Americanos tornou-se basicamente o de abastecer o mercado internacional atuando como financiador da política especulativa do neoliberalismo, por meio de programas de desnacionalização da economia e manutenção de juros altos, para o pagamento da dívida. Segundo Plínio de Arruda Sampaio Júnior, vivemos um período de “reversão neocolonial”, no qual a política do capitalismo dependente, que outrora atingia algum tipo de desenvolvimento, mostra-se hoje limitada. As grandes empresas buscam das economias subdesenvolvidas apenas o  livre acesso aos mercados, o máximo de flexibilidade para aproveitar o potencial local como base e exportações que requerem força de trabalho barata e a retirada do capital nacional, público ou privado, dos segmentos da economia que possam representar bom negócio.

Com a transnacionalização do campo, o Estado brasileiro tem centralizado sua política econômica numa produção intensamente agroexportadora. A tendência desta política econômica é o baixo investimento em formação humana.  Olhando o Brasil das últimas décadas vemos um processo de desindustrialização e reprimarização da sua economia. O país tem deixado de produzir produtos manufaturados de maior valor econômico para voltar a produzir matéria prima básica e produtos pouco elaborados. Em contrapartida, não há investimento na escola pública porque não existe interesse da política econômica brasileira em formar força de trabalho altamente capacitada num modelo agroexportador. Em face desta realidade, a política educacional que se delineou para o Brasil tem simplesmente a função de formar uma força de trabalho barata e obediente, para o tipo de produção e emprego prevalecente no país, reduzindo ao máximo, gastos estatais com essa atividade. É por isso que o Brasil investe menos de 5% do seu PIB em educação e apenas 0,05% em Ciência e Tecnologia. É por isso que Michel Temer se apressou em aprovar a Reforma do Ensino Médio e a efetuar um corte de 44% do orçamento do Ministério da Ciência. Exatamente, porque a recolonização do país exige pouco investimento, exige pouca educação e muita submissão.

Nota: [1] Comumente tem se atribuído, por estudiosos da educação e grande parte da imprensa a responsabilidade do crescimento econômico dos países, para a educação.

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Sobre o autor: Saulo Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara; escreve às terças-feiras no Jornal Caboclo.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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