Triste realidade de violência contra as mulheres

por Padre Pedro Baldissera

Guardo na memória os relatos do primeiro seminário que, em 2013, colocou em debate a formação da Frente dos Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher em Santa Catarina. Eram mulheres narrando dolorosas histórias reais de agressões, de violências, de profundo desprezo pela vida. Tudo isso dentro de suas próprias casas.

Não falavam somente por elas, mas por muitas outras que, vítimas da violência doméstica, integram a estatística alarmante de um Estado que se orgulha por índices de desenvolvimento supostamente europeus, mas que debaixo deste rico imaginário, encobre os corpos de milhares de vítimas de uma sociedade que, infelizmente, mantém-se fundada no machismo e numa visão patriarcal do mundo. Neste espaço, do mundo real, a liberdade depende da concessão e o medo é rotina para meninas e mulheres.

No final de 2013, já com a Frente dos Homens pelo Fim da Violência implantada em SC, iniciamos um levantamento dos casos que resultaram em graves violências contra mulheres, nas regiões Oeste e Extremo Oeste. Foi assustador observar que mais de 70% das vítimas somente alcançaram o aparelho de segurança do Estado, ou o judiciário, já agredidas, mutiladas ou mortas. É doloroso também saber que isso se repete cotidianamente. Aconteceu no mês passado, na semana passada, ontem.

Também é estarrecedor observar que nos casos em que alcançaram o acesso à denúncia, estas mulheres não conseguiram garantir a segurança que representava, em muitos casos, a continuidade de suas vidas. Foram agredidas e mortas depois de concedida a medida protetiva. A dramaticidade destes dados somente confirma o quanto nossa sociedade deve ter como temática constante a violência de gênero, e a luta contra o machismo e a naturalização da desigualdade e da violência.

Duas dimensões de ação ganharam destaque nos debates da Frente dos Homens pelo Fim da Violência, com a participação de representantes de movimentos de mulheres, estudiosas e estudiosos do tema. O primeiro é que, respeitando o protagonismo das mulheres e dos movimentos feministas, é urgente o envolvimento dos homens neste debate. O segundo compreende a efetivação de políticas e mecanismos de Estado que, apesar de existirem legalmente, não existem realmente para a maioria das vítimas de violência.

Na primeira perspectiva, é claro que somos nós, homens, que praticamos estas violências. Somos também nós, homens, que perpetuamos os valores e narrativas que sustentam na sociedade uma ideia difusa do que significa liberdade, autonomia e respeito à vida. A liberdade de um menino não é a mesma de uma menina. Os brinquedos não são os mesmos. As perspectivas de vida não são as mesmas. Tudo é levado a um corte de gênero que, ao invés de valorizar a igualdade e respeitar diferenças, naturaliza a desigualdade e violenta as diferenças.

E o homem não é só o principal agente da violência, como também é parte da omissão. Quando nos calamos diante de piadas que naturalizam a agressão, colaboramos para que mais e mais pessoas a considerem normal. Quando não questionamos a desigualdade, principalmente nos espaços de educação e de trabalho, estamos confirmando nossa anuência a uma sociedade que desvaloriza o trabalho de uma mulher, em relação a um homem. Quando relativizamos o comportamento dos meninos que, na escola, “seguem a onda” e desrespeitam meninas das mais diversas formas, nós estamos concordando com a perpetuação, geração após geração, do machismo que agride, limita, mutila e mata milhares de mulheres.

Não há dimensão geográfica ou socioeconômica para a violência, tampouco corte de classe. Há violência, e ela é manifestada das formas mais diversas; pelo controle de recursos, do trabalho e até de questões puramente individuais, como a forma de se vestir ou com quem conversar. E como todas e todos sabemos, o caminho entre estes comportamentos e a violência física é curto e cercado de tragédias, em geral vividas no silêncio de um relacionamento que encarcera e oprime.

Considero importante, também, desmistificar a ideia de que os autores da violência são monstros possuídos por um sentimento vindo sabe-se lá de onde. Este é um caminho que tira destas histórias o componente do real, e as coloca num patamar mítico em que homens transformam-se, de uma hora para outra, em agressores. É algo bem próximo do que, há algum tempo, classificava-se como “legítima defesa da honra” movida por “forte emoção”. É como se a lei, até este tempo, buscasse não só proteger, mas também justificar a violência praticada por homens contra mulheres.

A realidade mostra que quem pratica estas violências são pessoas de carne e osso, que convivem conosco nos mais diferentes espaços sociais, e que muitas vezes até levantam-se contra injustiças e desigualdades. É duro, mas nossa sociedade vive sob o manto do machismo e do patriarcado até nos espaços mais progressistas.

Cabe a nós, em cada espaço, retirarmos destas posturas qualquer traço de naturalidade. E isso vale para a família, para a cultura, para a escola, a roda de conversa, o trabalho. Não há naturalidade na violência de gênero.
Ainda neste ponto, a Frente dos Homens pelo Fim da Violência definiu como pauta número um o debate do tema dentro das escolas, diretamente com crianças, adolescentes e jovens. Isso acontece a partir da promoção de seminários, campanhas, debates e ações de conscientização, em conjunto com movimentos, entidades e legislativos municipais, voltadas principalmente aos meninos.

O objetivo é construir, desde o princípio da vida escolar, a ideia de que não há diferença de conhecimento, de tarefas, de educação e de vida entre meninas e meninos. Já conseguiremos grandes avanços a partir do momento em que as meninas cresceram sabendo que elas são donas do próprio corpo, e que devem ser respeitadas nas suas escolhas e na sua individualidade. E que os meninos saibam que eles também são donos de seus corpos, de sua consciência, e entendem as meninas e as mulheres como pessoas que têm estes mesmos direitos. Que seja, portanto, naturalizada a igualdade.

Já no que diz respeito ao Estado, o que os diversos movimentos de mulheres, coletivos e conselhos nos apresentam, é uma resposta limitada a esta realidade de medo e insegurança. A omissão dos organismos públicos na implantação de políticas de enfrentamento à violência contribui para inibir a denúncia. Ao mesmo tempo, nos deparamos com a carência de serviços públicos que orientem e prestem assistência, minimizando ou rompendo com essa situação de abandono vivida pelas vítimas.

Outra questão que nos apontam os movimentos feministas é a ausência de articulação para o fortalecimento das redes de atendimento às vítimas, buscando – além do trabalho de conscientização – as garantias da aplicação da Lei Maria da Penha em sua totalidade, desde o registro dos casos até seu efetivo encaminhamento, com a proteção daquelas mulheres que têm suas vidas ameaçadas.

O problema pode ter inúmeras propostas de ação, mas o ponto central não pode ser esquecido: quem procura o aparato de segurança ou a justiça, temendo a violência e até a morte, não pode ser deixado sozinho numa hora de tamanho medo e desespero. Quantas mortes ainda serão necessárias até que aceitemos a necessidade de um debate aprofundado, do jardim de infância às faculdades, das secretarias de Educação à Segurança Pública, sobre igualdade entre homens e mulheres?

Enfrentar o machismo e o espírito de dominação que permeia as relações de gênero será uma das grandes revoluções deste século. E esta revolução já está sendo feita, dia a dia, pelas mulheres. Nos unirmos a este movimento, respeitando o protagonismo feminino, é um passo fundamental para nossa própria humanização.

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Sobre o autor: Padre Pedro Baldissera é deputado estadual, presidente do Fórum Parlamentar pela Preservação do Aquífero Guarani e das águas superficiais; escreve no Jornal Caboclo como colaborador.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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