Jornal Caboclo

da região do Contestado, SC

Colunas e Opinião

“A ocasião faz o ladrão, o congresso absolve”. Por Saulo Carvalho

Saulo Carvalho

por Saulo Carvalho

A palavra corrupção sempre fez parte do vocabulário do brasileiro médio. Quando se trata de política é quase unanime a afirmação de que todo político é corrupto. A palavra corrupção deriva do termo latim corruptio que no seu sentido original tem a ver com a deterioração e putrefação dos corpos. Os romanos já utilizavam o termo no sentido figurado para descrever as formas de inversão do poder. Mais longe, os gregos utilizavam a palavra diafthorá para se referirem ao processo de degradação dos costumes. Sócrates, que era um crítico da democracia grega, via que a coesão comunitária alcançada no tardo Arcaísmo estava ameaçada. Depois das guerras internas entre camponeses e a aristocracia (a chamada Stasis), os gregos puderam vivenciar o igualitarismo como forma de ser da polis. O igualitarismo no pensamento jônico do período arcaico significava a unidade entre o indivíduo e a comunidade. Ou seja, o ethos (modo de ser) grego estaria relacionado ao bem da comunidade acima do bem individual. Para Platão (seguidor de Sócrates), a democracia não passava de uma derivação da oligarquia, uma vez que permitia que os interesses privados da aristocracia se sobressaíssem aos interesses da Polis. Sócrates dizia abertamente nas praças que a democracia corrompia os costumes dos atenienses, por que se organizava dentro de um sistema de governo desigual. Para os filósofos atenienses, era preciso retomar a sociedade igualitária do Arcaísmo, por meio da educação (Paideia). O mesmo Sócrates foi acusado de corromper os mais jovens com suas ideias e condenado à morte por isso. Para manter o sistema de privilégios e poder os oligarcas transformaram Sócrates num detrator.

Sob o manto da anticorrupção o Brasil assistiu a maior operação e mais extensa da Polícia Federal nominada de “Lava Jato”.  Muitos políticos e empresários foram presos acusados de corromper a democracia brasileira. No meio das denúncias e delações estava a presidente Dilma Rousseff. Embora tenha sido alvo de ilações e até mesmo de “escutas” ilegais, não houve nenhuma acusação de que a mesma tenha sido agente direta de corrupção. Seu governo, no entanto, foi acusado diretamente de ser corrupto.  Inflamados pelo discurso anticorrupção, setores médios saíram às ruas para pedir o impedimento da presidente eleita. O congresso, por meio de Eduardo Cunha, encaminhou o pedido de impeachment da presidente, contudo, não havia acusação de crime de corrupção. Acusada de cometer “pedaladas fiscais”, Dilma foi afastada pelo Congresso. No entanto, os parlamentares favoráveis ao seu afastamento, fizeram isso não com base no crime fiscal, mas usaram a tribuna para apontá-la como corrupta.  Dilma foi afastada e o Congresso fez festa. Michel Temer assumia assim por completo a Presidência da República. Eduardo Cunha seria preso logo depois por crimes de corrupção. Esse seria o fim da corrupção. Todavia, as ações de Temer mostraram o contrário. Para aprovar as Reformas impopulares, Temer abriu as portas do Alvorada, deu jantares suntuosos, distribuiu ministérios e engordou as emendas parlamentares de seus aliados. Meses depois, uma investigação da Polícia Federal se depara com o envolvimento direto do Presidente Temer com a corrupção. Os donos da JBF delataram o pagamento de propina para manter o silêncio de Eduardo Cunha na prisão. O assessor de Temer seria interceptado carregando uma mala com meio milhão de reais, destinada ao pagamento de Cunha. A delação, as gravações, as provas eram elementos suficientes para mandar Michel Temer para prisão. Mas, havia o congresso. O pedido de investigação encaminhado pela Procuradoria Geral da República (PGR) teria que passar pela aprovação do Congresso. Agindo como um verdadeiro gângster, o presidente manipulou as Comissões, trocou relatores e aprovou emendas parlamentares bilionárias para comprar a fidelidade dos deputados da base aliada. Foram gastos mais de oito bilhões de reais em emendas parlamentares para o socorro de Temer. O Congresso respondeu ao seu aceno e mesmo contra todos os fatos o absolveu. A corrupção que tirou o poder de um manteve o poder do outro. A corrupção não comprovada de Dilma foi punida pelo mesmo Congresso que absolveu a corrupção escancarada de Temer. O poder da riqueza que corrompeu a democracia da Grécia Antiga corrompe hoje a frágil democracia do Brasil Moderno. Bancos, empresas e ruralistas tiveram suas dívidas perdoadas, o trabalhador perdeu seus direitos e o cidadão médio assiste tudo calado pela televisão. Venceu a hipocrisia!

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Sobre o autor: Saulo Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara; escreve às terças-feiras no Jornal Caboclo.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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