No dia 22 de outubro foi travada a Batalha do Irani quando começou a Guerra do Contestado há 112 anos
O sonho de Vicente de Telles foi o Acordo de Paz assinado 105 anos depois
Por Edison Porto
Muito já se escreveu sobre a Guerra do Contestado considerada a maior guerra civil do Brasil. Estimativas oficiais apontam cerca de 10.000 mortes, mas historiadores dizem que a tragédia foi muito maior. Muitos registros oficiais foram destruídos, ou nunca feitos. Além das mortes em combate, muitas vidas foram perdidas por fome, doenças ou execuções.
Apesar de vários autores terem se debruçado em pesquisas para contar esta história, eu acredito que há ainda muitos fatos e eventos a serem pesquisados para dar mais amplidão aos conhecimentos que hoje temos sobre toda a complexidade política, econômica e social que envolveu este sangrento episódio em Santa Catarina.

Nesta significativa data de 22 de outubro, quando ocorreu a batalha do Irani, eu, um brasileiro nascido noutro sítio histórico, o Bairro do Ipiranga, em São Paulo, quero contar da minha emoção ao conhecer essa tragédia catarinense, que só fui saber ao meu mudar para Caçador, palco da Guerra, a Região do Contestado, em 2014
.Quando questionava os moradores de Caçador sobre a palavra: “Contestado”, que aparece dando nome ao Museu, à Universidade e lojas comerciais, eu recebia diferentes respostas:
Uns diziam que era porque o Rio do Peixe dividia a região entre Brasil e Argentina e havia um contestação quanto à esta divisão. Outros, diziam que o rio na verdade dividia SC e PR e havia a contestação desta fronteira. Recebi também a explicação de que a Guerra era por causa de uma ferrovia que ligava SP ao RS e passava por aqui desalojando os caboclos que viviam na região.

Só fui começar a entender a complexidade desta guerra no lançamento do documentário “TERRA CABOCLA”, ocorrido na Câmara Municipal de Caçador, em 2015, na abertura da I Semana do Contestado (*).
O documentário dos cineastas Márcia Paraíso e Ralf Tambke, conta relatos de descendentes de caboclos que viveram esta Guerra, seja como combatentes, ou como pessoas que sofreram seus efeitos sem mesmo pegar em armas.
Durante a apresentação do filme, meus olhos marejaram várias vezes, algumas delas pela fala de pessoas e, outras vezes pela impressionante apresentação musicada pelo gaiteiro que me parecia bem estranho. Ele usava uma túnica à moda chinesa, tipo Mao Tse Tung, e um gorro do tipo do David Crockett (personagem histórica do desbravamento do Oeste dos Estados Unidos). Mas aquele homem estranho conseguia me fazer chorar com a realidade triste que colocava em sua voz.
Ao final da projeção do filme, houve uma roda de conversa com vários estudiosos e pesquisadores com os dois cineastas. Foi assim que conheci e iniciei uma enriquecedora amizade com eles, e com seus debatedores: Júlio Corrente (então responsável pelo Museu Histórico e Antropológico do Contestado); Prof. Nilson Cesar Fraga (historiador, pesquisador da Universidade Estadual de Londrina); Calos Silva Nedi Veiga (pesquisador dos sítios históricos de Lebon Régis); João Batista (o JB, jornalista, escritor e pesquisador de Calmon).

No ano seguinte, 2016, a convite do Carlos Silva, fui à abertura da II Semana do Contestado de Lebon Régis, onde estava sendo apresentada a opereta Aquarela do Contestado, com Vicente Teles na gaita, seu filho Vicente de Paula no teclado e sua nora Nancy cantando. Mais uma vez aquele homem me emocionava. (links para filmes desta opereta ao final do texto).

No final da apresentação fui me apresentar: “Senhor. Vicente, eu sou Edison, paulistano, e quero lhe contar que não conhecia nada disso… ” – Não terminei a fala, pois ele pegou o celular no bolso do paletó e começou a gravar: “Estou aqui com um paulistano… ” – E começou a me entrevistar. (link para o filme deste momento ao final do texto)

Depois soube que a entrevista era para o seu programa “Voz do Contestado” para uma rádio comunitária da cidade de Irani. E foi o começo da nossa amável e instrutiva amizade. Sim, eu aprendi muito com o que me contava o Vicente Telles, um verdadeiro “Mensageiro do Contestado”. Músico; folclorista; poeta, escritor e pesquisador, Telles compôs muitas canções retratando a Guerra, como por exemplo, Chica Pelega.
Foram vários encontros em eventos em Lebon Régis e em Caçador, além das várias vezes que visitei o Vicente em seu Lar no Irani, onde existe o Memorial do Contestado. Sua casa fica em frente ao histórico Cemitério do Contestado, onde repousam os restos mortais da “Vala dos 21” (nove militares paranaenses e doze caboclos mortos na Batalha do Irani).

Entre muitos fatos históricos que o Vicente me contou, ele falava do sonho de realizar a assinatura do Acordo de Paz entre Paraná e Santa Catarina. Ele dizia que passado mais de 100 anos ainda existia um ranço entre políticos do Paraná e de Santa Catarina, de um conflito entre os dois Estados que terminou com um Acordo de Limites, sem que houvesse um definitivo Acordo de Paz.


Com o tempo ele conseguiu estruturar a Assinatura do Acordo de Paz 105 anos depois. Ele me pediu para marcar na agenda que no dia 22 de outubro de 2017 eu tinha que estar lá em Irani, para presenciar a assinatura deste Acordo, com as tropas da PM do Paraná, lado a lado, com as tropas da PM de Santa Catarina, juntamente com os descendentes dos caboclos que lutaram na Batalha do Irani.
A data chegou, numa semana chuvosa, a programação feita com a Prefeitura do Irani foi definida para acontecer no Ginásio Municipal da cidade. Antes de partir de Caçador, telefonei para o Vicente para saber aonde ir. Ele disse que não estava bem e me pediu para ir direto para a casa dele, que ele não iria à parte da cerimônia junto à Vala dos 21.

Eu fui para lá, acompanhado do jornalista Vanderlei Pires (na época ainda estudante de jornalismo que cursávamos juntos). Meu querido amigo Telles estava um tanto prostrado na poltrona e se continuasse assim não iria comparecer ao novo evento histórico do qual era idealizador.
O Vicente de Paula, seu filho, teve que ir com a esposa Nancy para o Ginásio acertar o som para a apresentação que fariam. Lá o publico foi de cerca de 2.000 pessoas incluindo a Banda Militar do Paraná, com tropas dos dois Estados. Vicentinho ao sair me pediu: “Se meu pai melhorar, vocês o levam para o Ginásio, por favor. “

Graças a Deus o Vicente foi se entretendo na conversa conosco. Eu e o Van fazíamos muitas perguntas e adorávamos ouvir nosso sábio amigo. E assim ele melhorou e ficou em condições para irmos ao Ginásio.

Muitas crianças, militares, civis, autoridades formavam a plateia que ouviu o querido trio encabeçado pelo Mensageiro do Contestado, Vicente Telles.

Depois da apresentação musical deles, aconteceu a assinatura do Acordo de Paz, com o Prefeito de Irani, Sivio Antônio Lemos das Neves, representando o Estado de Santa Catarina, e a Chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Paraná, Audilene Rosa de Paula Dias Rocha (**), representando seu Estado. (Foto de Capa)

Na cerimônia da assinatura do Acordo de Paz, que demorou 105 anos para acontecer, foi formado um círculo com autoridades civis e militares do Paraná e de Santa Catarina de mãos dadas.

Com este relato eu homenageio Vicente Telles, O Mensageiro do Contestado, que vi pela última vez naquele dia 22 de outubro de 2017, pois cerca de dois meses depois ele nos deixou para seu juntar ao Exército Encantado de São Sebastião, com o qual continua zelando pela Paz no Contestado.

Ontem a voz do meu querido Vicente Telles voltou a me emocionar. Eu fui assistir a “Ópera Xucra” na cidade de Lebon Régis, onde estudantes de várias séries apresentaram o episódio da “Páscoa Sangrenta” naquela Guerra.

Foi a abertura da XI Semana do Contestado da cidade. Para minha surpresa, durante uma encenação a voz do narrador era a do Vicente, uma maravilhosa homenagem dos organizadores do evento: Carlos Silva e Prof. Nilson Fraga, que contaram com a ajuda da cineasta Márcia Paraiso que com o Ralf Tambke estava lá registrando tudo.

Veja neste link um trecho da Ópera Xucra com o episódio Páscoa Sangrenta com narração na voz de Vicente Telles:
Assista neste link do Canal do Contestado cenas da cerimônia de Assinatura do Acordo de Paz assinado por Santa Catarina e o Paraná no dia 22 de outubro de 2017:
Neste link você poderá ver uma apresentação de cenas do dia da Assinatura do Acordo de Paz em 2017, realizadas pela empresa Signos:
https://www.facebook.com/signoscomunicacao/videos/1544649525617993
Aqui um trabalho de dois estudantes de jornalismo na época, para seu blog Espalh@fatos, com cenas da Assinatura do Acordo de Paz em 2017. Hoje eles são reconhecidos jornalistas: Andrielli Zambonin (atualmente repórter da ND TV de Joinville) e Vanderlei Pires (hoje jornalista do EXTRASC de Caçador):~~
https://www.facebook.com/oficialespalhafatos/videos/1760642320673696
Assista a Primeira Parte da Aquarela Cabocla do Contestado apresentada na abertura da I Semana do Contestado de Lebon Régis em 18 de outubro de 2016:
Aqui a Segunda Parte da Aquarela Cabocla do Contestado:
Hoje tenho como uma preciosidade este vídeo do meu primeiro encontro com Vicente Telles, em 18 de outubro de 2016, dando início a uma amizade eterna, não importa onde ele e eu estejamos. O nosso último encontro foi na Assinatura do Acordo de Paz em 22 de outubro de 2017:
Curiosidades:
(*) A realização da Semana do Contestado foi instituída oficialmente com a Lei Ordinária n.º 3.298/2016 do município de Caçador (SC), proposta pelo vereador Ricardo Pelegrinello, envolvido em debates sobre o tema no ano anterior e como resultado do sucesso da I Semana do Contestado, em cuja abertura, com sua presença, ocorreu o lançamento do Documentário Terra Cabocla, com a presença dos cineastas e produtores Márcia Paraíso e Ralf Tambke. Em seu primeiro artigo esta Lei define que: “Fica instituída, no Município de Caçador, a Semana do Contestado, a ser realizada anualmente, com o objetivo de valorizar e dar visibilidade à história da região do Contestado, bem como promover a cultura, o turismo histórico e a educação acerca dos conflitos ocorridos na área que envolve o município. “
(**) A Chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Paraná, Audilene Rosa de Paula Dias Rocha, foi a primeira mulher a comandar a PM do Paraná em 163 anos de sua existência.
(***) A Batalha do Irani aconteceu porque o Coronel paranaense João Gualberto queria destruir o que considerava “catarinenses invasores do Paraná” e resolveu atacar as tropas lideradas pelo Monge José Maria. Porém o monge nem catarinense era, ele era originário do Rio Grande do Sul de onde desertou do exército gaúcho, seu nome verdadeiro era Miguel Lucena de Boaventura. Ele decidira movimentar sua tropa de caboclos do Reduto de Taquaruçu, na região de Curitibanos, para o Irani, quando soube que o governador ordenara que as tropas de Lages os atacassem. Esta movimentação foi interpretada pelo ambicioso Cel. João Gualberto como invasão ao Paraná.
(****) Fotos da Ópera Xucra estão disponíveis na página do Facebook do Jornal Caboclo no Ábum:
https://www.facebook.com/media/set/?vanity=jornalcaboclo&set=a.1233205215492014
______________________________

Sobre o autor: Edison Porto, Consultor de Negócios, administrador pela Eaesp/FGV; MBA em Finanças pelo IBMEC-SP, bacharelando em Direito; Técnico em Agronegócio – SENAR SC; Membro da Diretoria do Grupo de Teatro Temporá, Vice Presidente da OSCIP Gato do Mato. Editor do Jornal Caboclo. Detentor da Marca Registrada no INPI: IMPRENAUTAS – Informação e Cultura.
______________________________
P.S.: Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
______________________________
Mensagem do editor:
Textos e imagens de propriedade do Jornal Caboclo podem ser reproduzidos de modo parcial, desde que os créditos autorais sejam devidamente citados.
Comuniquem-nos, por favor, de possíveis correções.
__________________________________
