Balzac e o Jornal Nacional. Por Saulo Rodrigues de Carvalho

por Saulo Rodrigues Carvalho

De vez em quando assisto o Jornal Nacional, não para me informar, mas para saber qual será a ilusão que irão sustentar na semana.  Depois de trabalhar duro para justificar a PEC de limitação de gastos, a Reforma do Ensino Médio e a Reforma da CLT, o jornalismo do horário nobre segue incansavelmente em sua sina de convencer os incautos de que a previdência está acabando com país.  Enquanto isso 1 trilhão de reais são perdoados das petroleiras que irão explorar o pré-sal . Com a aprovação do texto de mais uma Medida Provisória (MP-795/2017), o governo isentará de impostos por 20 anos as empresas estrangeiras que irão perfurar, extrair e comercializar o petróleo existente em nosso território. Fiquei aguardando se haveria algum repórter diretamente da Câmara dos Deputados relatando o fato, se haveria depois comentários de especialistas com infográficos explicando quantas escolas e hospitais poderiam ser construídos com esse dinheiro, ou se preferirem, carros populares que poderiam ser comprados. Mas não. Até o fechamento deste meu pobre artigo, nada foi dito em relação à espoliação nacional. Ao contrário, continuam fazendo previsões calamitosas sobre a previdência, anunciando que irá quebrar o Estado, que é um privilégio do serviço público e tantas outras afirmações sem lastro. Até hoje não disseram uma linha sobre a CPI da previdência, que comprova a saúde do atual Regime Geral da Previdência Social e aponta erros grosseiros na proposta de reforma apresentada pelo governo. Segundo o relator da CPI, as empresas privadas devem R$ 450 bilhões para a previdência. Não é o trabalhador que tem descontado nos seus contracheques mensalmente que é responsável pelos déficits anunciados, mas sim os seus empregadores que sonegam a quota-parte. Mas, assistindo a tudo isso pela televisão e vendo alguns jornalistas novos juntamente com outras raposas do jornalismo televisivo conduzindo com destreza a opinião pública, me fez lembrar o romance de Balzac. Do jovem Lucien, um poeta provinciano em busca da fama e do sucesso em Paris. Para publicar seu livro de poemas, o talentoso escritor começa a trabalhar como redator de um pequeno jornal parisiense. Logo descobre que a imprensa tinha grande poder de fazer de tudo, menos informar. Com seus artigos podia levantar e derrubar quem quisesse. O poeta das “Margaridas” seria corrompido pelo sucesso de suas críticas aos teatros, cabarés e a outros escritores. Descobrira que o jornal falava de quem pagasse melhor. Que as atrizes pagavam pelos elogios, mas também pela crítica. Aprenderia logo a falar dos defeitos quando deveria falar das virtudes, a exaltar as qualidades quando elas não existissem, ou mesmo não falar nada, para que o público pensasse que nada havia acontecido. Nas palavras do personagem Claude Vignon, Balzac profetiza o jornalismo de hoje, “um jornal não é mais feito para esclarecer, mas para adular as opiniões. Assim, todos os jornais serão em um dado tempo covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos; matarão as ideias, os sistemas, os homens, e por isso florescerão”. Se no século XIX os jornais escritos já apresentavam tal forma de proceder, hoje essas formas foram amplificadas mil vezes com a mídia televisiva. Infelizmente essas não são apenas qualidades do Jornal Nacional, mas traços genéticos de um jornalismo corrompido pelo vil metal. No Brasil, as pessoas foram educadas para acreditar em tudo o que o jornal lhes diz e a aparência de verdade acaba valendo mais que a própria verdade. Felizmente, as pessoas vivem e sentem para além das aparências e, no caso específico da reforma da Previdência, sabem o que é trabalhar até os 65 anos sem aposentadoria, por mais que o Jornal Nacional busque convencer-lhes do contrário.

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Sobre o autor: Saulo Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara; escreve semanalmente no Jornal Caboclo.

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