“‘Uberização’ do ensino e a decadência do nosso tempo”. Por Saulo Carvalho

Saulo Carvalho

por Saulo Carvalho

A difícil tarefa de interpretar o atual estágio de mudanças da sociedade, ao mesmo tempo em que estamos no bojo das transformações, nos traz a sensação da constante incerteza das coisas.

Não obstante, a discussão acerca da modernidade implica o embate de diferentes matizes do pensamento que se alinham como identificou José Américo Pessanha [1] (1993), entre a lógica do “portanto, portanto, portanto”, em contraposição ao “depende, depende, depende”.

No primeiro, identificamos uma forma conclusiva de raciocinar, através de um desencadeamento lógico que permite a solução consequente para o problema proposto. Uma solução hermética, depurada, inegável que prevaleceu durante séculos sobre a face da Terra.

Não muito longe dali, encontramos um tipo de pensamento gradiente que incide sobre as formas aparentes da realidade. Não é mais necessário saber a essência das coisas, “as coisas são as coisas” diria o poeta, e assim a impossibilidade da interpretação da “essência” do real, nos permite, conhecer apenas o “fenômeno” [1].

Contudo, o pensamento contemporâneo se diferencia da epistemologia Kantiana, que afirma não ser possível chegar à essência do fenômeno, embora ela exista, fato que a contemporaneidade procura negar.

Sendo assim, para o pensamento contemporâneo os clássicos esquemas explicativos teriam caído em descrédito e o “naufrágio da ideia de progresso” coloca a marcha da ciência em xeque. As certezas da modernidade parecem se “desmanchar no ar” e a humanidade passa a caminhar sob um campo obnubilado, numa sombra densa que nos permite enxergar apenas os delineamentos da realidade. Estaríamos, por fim, presos às sombras da caverna.

É verdade, no entanto, que o uso de determinadas palavras até o momento, têm o objetivo maior de criar certas imagens sobre o pensamento contemporâneo do que explicá-lo cientificamente. Para entendê-lo, penso que seria necessário compreender as próprias transformações ocorridas na estrutura da sociedade e a sua influência sobre a ação e o pensamento dos homens. O que não faremos neste diminuto texto. Aqui apenas lançamos a dúvida, com certa ironia. Mas o motejo do nosso tempo é a “uberização” das profissões. Ela não se restringiu apenas aos taxistas, como tão somente tem se alastrado para outras profissões ligadas aos serviços. Sim, ela já chegou à educação. E não é nenhum eufemismo, ou analogia.

Em Ribeirão Preto-SP, a prefeitura lançou uma proposta de aplicativo que tem como objetivo contratar professores substitutos ao estilo “delivery”. Por meio de mensagens no celular o professor seria acionado para substituir a ausência de algum colega faltante. Após a chamada teriam apenas 30 minutos para aceitarem e uma hora para chegarem até a escola, caso o contrário o serviço seria passado para outro professor.  Sem vínculo com a prefeitura esses professores “deliverys” receberiam apenas pelas aulas dadas. Há obviamente um total menosprezo pela atividade docente. Dar uma aula não é só ficar à frente dos alunos falando qualquer coisa. Uma aula exige conhecimento do assunto, preparação do docente e planejamento. Mas, não são apenas os problemas de ordem didática e profissional que me chamam a atenção nesse episódio. O que mais me preocupa é a decadência do pensamento do nosso tempo, expresso neste projeto educacional, para o qual a educação tem o mesmo valor de uma pizza! E como entender isso? Uma das grandes preocupações pós-ditadura foi a consolidação de um perfil para a docência. O cuidado com uma formação docente profissional, crítica e criativa que acompanhasse as alterações do nosso tempo. Mas, parece que tudo isso se esvaiu. Garantir a qualidade do ensino não é a principal preocupação de nossos governantes. Economizar, reduzir e cortar tem sido o critério para a construção dos sistemas educacionais. É a lógica da mercadoria que prevalece. Produzir mais em menos tempo e reduzir o valor. A docência se encontra cada vez mais desvalorizada e as únicas mudanças que os professores têm acompanhado são as relacionadas à precarização das profissões: terceirizadas, vilipendiadas e “uberizadas”.

Da mesma forma que podemos afirmar que “tudo o que é sólido desmancha no ar”, poderíamos também crer no oposto: que tudo permanece o mesmo. Como se esse nosso período histórico, com sua constante fluidez, tivesse o único empenho de persuadir-nos da insuperabilidade do mercado. Isso pode nos levar a achar que todas as transformações, mesmo quando de modo superficial se voltam contra o mercado, satisfazem, sempre, às necessidades últimas do próprio mercado. A mercadoria parece ser a única coisa imutável em nosso mundo em transformação.

Nota: [1] Kant afirma que não podemos conhecer a “coisa-em-si”, isso significa que não podemos ter acesso a essência das coisas, uma vez que só podemos ter acesso a elas através dos dados que os sentidos nos trazem. Por isso, conclui ele, não podemos conhecer o “númeno”, mas apenas o “fenômeno”.

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Sobre o autor: Saulo Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara; escreve às terças-feiras no Jornal Caboclo.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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