“O que haveria se a ditadura militar não tivesse ocorrido no Brasil?”. Por Saulo Carvalho

Saulo Carvalho

por Saulo Carvalho

Não podemos de fato saber o que haveria se o Brasil não tivesse perpassado o período inglório da ditadura militar. Porém, nossa capacidade de abstração e um pouco de conhecimento da história, nos dá a possibilidade de projetar conjecturas que demonstrariam uma construção diferente do país e de sua própria posição geopolítica no mundo. Acredito que o Brasil seria diferente se tivesse assumido outra política, que não o conservadorismo reacionário imposto pela ditadura.

Tal conservadorismo nasce como uma reação aos movimentos progressistas que se eclodiram no interior do Exército brasileiro. Desde sua origem o exército brasileiro, adotou uma postura intervencionista na política. A guerra do Paraguai, a proclamação da república, Canudos, o Contestado, tiveram participação ímpar do alto comando do exército nas decisões políticas. Mas, revolução de 1930 foi um marco que diz muito sobre a divisão política dentro das forças armadas.  Nesse período havia um  posicionamento entre os extremos, da esquerda do tenentismo e a direta da Escola Superior de Guerra (ESG). De um lado as ideologias iluministas permeavam as quarteladas dos oficiais de baixa patente. Por outro, os oficiais de alto-patente tinham um posicionamento ideológico mais a direita. Desse segundo movimento, formado por jovens oficiais que foram estudar na École Supérieure de Guerre (França) e no Fort Leavenworth War School (EUA), formou-se a elite militar brasileira cuja ideologia conservadora prevaleceu.

Contudo, os governos populistas de Getúlio, JK e Jango desagradavam os interesses ideológicos da ESG. A era Vargas mesmo com os entremeios de Café Filho e Gaspar Dutra, foi marcada por iminentes tentativas de golpes militares. JK, no entanto, fez uma política liberal e tinha como apoio o Marechal Lotte, que continha a pressão dos alto-oficiais. Porém, o conturbado governo de Janio e a sucessão por Jango, foram os estopins para dar início ao golpe.

Com a derrota dos países do Eixo na Europa, inicio-se um período de redemocratização dos países latino-americanos. No Brasil o Estado Novo não resistiu a investida de seus opositores e a influencia norte- americana, decidiu adaptar as instituições do país a uma maior intervenção econômica e social do EUA. A partir daí o país obteve governos conservadores e repressivos (Eurico Dutra e Café Filho) ao lado de governos populistas que usavam o discurso popular, mas estavam ligados aos interesses dos grupos internacionais (Vargas, JK, Jango). O Brasil se modernizou em função das necessidades do capital de grupos nacionais e estrangeiros. Enquanto isso os EUA davam início ao seu programa de Aliança para o Progresso, preconizando a necessidade de realizar uma reforma agrária no país. Tal programa tinha o objetivo de conter as repercussões libertárias da revolução cubana. Kennedy previa a realização de reformas agrárias conservadoras nos países da América Latina, que diluíssem as lutas e mantivessem a estrutura que serviam aos seus interesses. Jânio aceitou o modelo e Jango tratou de ampliá-lo, contudo os trabalhadores aproveitaram a oportunidade para pressionar. Jango desapropriou terras que se situavam as margens de rodovias. Essa tentativa provocou a queda de Jango.

Em março de 1964, descontentes com o rumo político nacional e considerando que o congresso, não teria forças para conter o movimento popular das “reformas de base”, as forças armadas deflagraram o golpe que derrubou o governo constituído. No dia 1º de abril, começou o período autoritário e as forças populares passaram a ser severamente controladas pelo aparelho repressivo.

Podemos observar alguns pontos desse cenário: Primeiro, se não houvesse uma ditadura, o país passaria por reformas importantes na estrutura econômica capitalista, mas do ponto de vista político, teríamos tido uma experiência muito mais rica e participativa. Em segundo plano, o Brasil estava muito longe de se tornar uma República Socialista. Jango nunca foi comunista, era de outro modo, um estadista e nacionalista na linha de Vargas. As reformas que se seguiam no país antes do período ditatorial, tinham cunho liberal, mas possuíam o peso da pressão popular e da organização das massas. E por último o país seguia para um tenso conflito de classes o que poderia acarretar num equilíbrio das forças e para uma possível reformulação do Estado de Bem-Estar social. No entanto, o saldo que tiramos dessa truculenta ação militar que durou vinte anos, foi: 1.uma quase completa despolitização da população que explica em partes o conformismo de hoje; 2.o enfraquecimento dos movimentos sociais (altamente repreendidos no período) e que hoje ainda são criminalizados e tratados de forma violenta; 3.a constituição de um Estado altamente burocratizado e o surgimento das bases para um regime neoliberal.

Com certeza, muitos problemas que persistem hoje, não seriam resolvidos, mas episódios como “nossa bandeira jamais será vermelha” e o cancelamento da exposição de obras de arte do Queermuseu, organizada pelo Santander em Porto Alegre, talvez, pudessem ser evitados. Teríamos tido pelo menos um pouco mais de conhecimentos de história e geografia, para não confundir a bandeira japonesa com o comunismo e possivelmente um debate mais democrático e aberto sobre as manifestações artísticas, ao invés do fundamentalismo e intolerância que optam pela proibição e fechamento de tudo aquilo que lhe é diferente.

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Sobre o autor: Saulo Carvalho é professor do curso de Pedagogia na UNICENTRO, campus Guarapuava-PR e Doutor em Educação Escolar pela UNESP-Araraquara; escreve semanalmente no Jornal Caboclo.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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