“É possível a utilização de silagem de bagaço de maçã como recurso forrageiro de qualidade?”. Por Andressa Fernanda Campos

por Andressa Fernanda Campos

A economia do país passa por profundas modificações, as quais exercem grande impacto sobre o setor agropecuário. A redução das margens de lucro e o aumento da concorrência, interna e externa, fez com que o aumento da eficiência na produção agropecuária durante todo o ano se torne condição básica para a competitividade da atividade pecuária. Com isso, há um expressivo aumento da necessidade de novas estratégias frente àquelas já utilizadas normalmente no ambiente produtivo.

Dentre todas as estratégias passíveis de implantação, aquelas que se destinam a diminuir os custos com alimentação dos rebanhos necessitam ser cada vez mais aprimoradas, pois este fator é o que mais aumenta os custos do sistema de produção animal. Uma das estratégias que pode auxiliar nesse processo é a conservação de materiais na forma de silagem e uso de resíduos gerados pelas agroindústrias, pois garante a fonte volumosa na ração do animal durante a época de escassez de pastos.

A ensilagem compreende no processo de armazenamento da forragem em condições de anaerobiose, ou seja, ausência de oxigênio, com o objetivo de desenvolver microrganismos desejáveis e, a partir de compostos solúveis da planta, sintetizar ácidos orgânicos e, consequentemente, reduzir o pH do material ensilado para a produção da silagem.

Costumeiramente, as silagens produzidas para a alimentação animal baseia-se no uso de cereais como matéria-prima, principalmente o milho. Nesse ano de 2017, o preço do grão de milho no mercado elevou-se, estimulando os produtores a vendê-lo às empresas beneficiadoras e não a ensilá-lo para a produção de silagem. Com isso, necessita-se pensar em alternativas a essas silagens convencionais para que não ocorra falta de alimentos volumosos para a alimentação das vacas leiteiras no período de escassez de forragem.

As silagens elaboradas com resíduos da agroindústria de frutas possuem grande potencial de uso, pois detém valores nutricionais semelhantes aos grãos, como, por exemplo, a polpa úmida de laranja , resíduo de suco de caju e subproduto de abacaxi . Essa tecnologia também auxilia no correto destino dos resíduos sólidos, preconizados pela Lei Federal Brasileira no 12.305, de 23 de dezembro de 2013, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

A região de Videira – SC destaca-se como uma das maiores produtoras de suco de maçã de Santa Catarina e também possui uma das maiores fábricas de industrialização deste produto, gerando resíduos. O resíduo dessa produção consiste no bagaço de maçã, resultado da prensagem da fruta, composto por cascas e polpas (94,5%), as sementes (4,4%) e os centros (1,1%). Em sua composição químico-bromatológica, o bagaço de maçã tem características positivas para a nutrição animal, como a baixa concentração de fibra, o que o torna altamente digestível. Apesar disso, possui também baixa concentração de matéria seca (MS), com valores entre 15 e 20%, sendo esse um entrave na produção de silagem de qualidade.

O teor de MS é considerado um dos mais importantes fatores que contribuem para a obtenção de uma boa silagem. Existe uma faixa de percentagem de MS ideal para o processo de produção e conservação da silagem, que está em torno de 30 a 35%. Teor de MS inferior a 25% propicia ambiente favorável à proliferação e ao desenvolvimento de bactérias indesejáveis ao processo de conservação, além de perdas de compostos nutritivos por meio da produção de efluentes, sendo essa a parte líquida da silagem que é extravasada durante o período de armazenamento, ricas em compostos altamente nutritivos. Já o teor de MS acima de 35-37% também não é desejável, pois diminui a densidade de compactação, o que influenciaria diretamente na quantidade de oxigênio residual na massa ensilada e a possível condição de crescimento inicial de microrganismos que não promovem a fermentação ideal.

Para uma adequada utilização desse para a ensilagem, há necessidade de aumento da MS inicial do material. Esse aumento pode ser realizado de diferentes formas, como a mistura com materiais sequestrantes de umidade, pré-secagem e a utilização de produtos químicos desidratantes. Entre esses processos, a pré-secagem feita a temperatura ambiente é a forma de menor custo e pode viabilizar a ensilagem de um material com excesso de umidade . No IFC – Campus Videira, projetos de pesquisa estão sendo realizados para determinar a melhor forma de secagem desse material até valores ideais, além de avaliar o valor nutritivo dessas silagens após um tempo de armazenamento e fermentação de 60 dias. Acredita-se que os resultados auxiliarão na difusão de mais uma alternativa que preconiza atender produtores rurais da região, além de objetivar aumentar a lucratividade desse sistema de produção.

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Sobre a autora:

Andressa Fernanda Campos, pós-doutora em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista – Campus Jaboticabal/SP e coordenadora do Curso Técnico em Agropecuária do IFC – Campus Videira.

Sobre a coluna “IFC: Educação para todos”:

Este é um espaço de discussão de temas relacionados à Educação Pública, Sociedade, Profissões, Cursos, Ciência e Tecnologia. Toda semana um assunto diferente será abordado por professores e técnicos do IFC Videira. Tem sugestão de temas que gostaria de ver aqui? Mande sua ideia para comunicacao@ifc-videira.edu.br

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P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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