Romaria da Terra marca a história de uma luta pela vida

por Padre Pedro Baldissera

A Romaria da Terra e das Águas, que neste domingo (10 de setembro) terá a sua 24ª edição no município de Pescaria Brava, no Sul de Santa Catarina, tem uma ligação profunda com Fraiburgo, mais precisamente com a comunidade de Taquaruçu. Foi nesta comunidade que, no dia 14 de setembro de 1986, aconteceu a 1a Romaria da Terra, com o lema “Da luta pela terra brota a vida”.

A frase mostra todo o significado deste momento de luta, de partilha e de reflexão que é a Romaria da Terra. A comunidade de Taquaruçu foi escolhida por ter sido palco de um dos maiores massacres na luta pela terra na América Latina, a Guerra do Contestado. De um lado os latifúndios, as empresas transnacionais e o exército; de outro, caboclos e caboclas, o povo pobre que buscava sua terra para viver com dignidade, e trabalhar. Entre 1912 e 1916 estes homens e mulheres lutaram pela sua vida, pela sua terra e pelo seu trabalho, contra o poder que, como vemos até hoje, insiste acabar com vida de milhares de seres humanos em troca de dinheiro.

Conforme relato de Edson de Lorenzi, naquele setembro de 1986, as pessoas da comunidade se mobilizaram na preparação de comida e na recepção dos romeiros. Famílias inteiras passaram a noite ajudando a fazer pães para a partilha da comida entre todo aquele povo. Este depoimento é, também, a síntese da Romaria. Como é emocionante e simbólico ver que, desde aquele ano, o nosso povo se organiza e age em comunhão, lembrando as lutas e defendendo suas vidas, a terra, a água, enfim, tudo que representa um viver pleno.

Muitas mãos também construíram a 24a Romaria da Terra e das Águas em Pescaria Brava. Com o tema ‘Mata Atlântica, nossa Casa Comum’, esta edição faz referência à Campanha da Fraternidade 2017, aprofundando a reflexão sobre o cuidado com a criação, em especial o bioma Mata Atlântica, que está presente em todo o território catarinense. Na programação, além de celebrações e debates, teremos várias místicas e também a plantação de mudas, que materializa a ideia da preservação e da valorização da vida.

E é importante lembrar que além da romaria muitas atividades acontecem nas regiões, com o Grito dos Excluídos, com debates pautando a questão ambiental e a influência disso na vida do nosso povo. E aqui, junto de pastorais, comunidades, organizações, movimentos sociais e populares, lembramos a luta pela vida de tantos companheiros e companheiras que, contrariando a lógica fácil do poder e do dinheiro, seguem em fileiras defendendo a vida. É este, na minha opinião, o grande significado da Romaria da Terra e das Águas: ela nos mostra que não estamos sozinhos na luta por vida, e vida digna e plena.

______

Sobre o autor: Padre Pedro Baldissera é deputado estadual, presidente do Fórum Parlamentar pela Preservação do Aquífero Guarani e das águas superficiais; escreve no Jornal Caboclo como colaborador.

P. S. : Os conceitos emitidos por artigos ou por textos assinados e publicados neste jornal são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

_____

Mensagem do editor:

Textos e imagens de propriedade do Jornal Caboclo podem ser reproduzidos de modo parcial, desde que os créditos autorais sejam devidamente citados.

Comuniquem-nos de possíveis correções.

Publicidade / Jornal Caboclo
Apoio / Jornal Caboclo
Apoio / Jornal Caboclo
Apoio / Jornal Caboclo

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial